“Um homem nunca morre enquanto for lembrado”


Que bom séria comemorar os cem anos de vovô em vida, que alegria seria se ainda pudéssemos viver mais tantos momentos bons ao seu lado, desfrutar do aconchego e pudéssemos ouvir seus conselhos que hoje são de grande importância em nossas vidas. Mas infelizmente ele se foi, e nos deixou órfãos de sua presença, se foi deixando seu lugar na mesa, sua rede no terraço, sua cadeira na calçada, sua bengala atrás da porta, sua bolsa pendurada no torno e acima de tudo, se foi deixando um grande vazio em nossas vidas. Comemorar o centenário de vovô Arnobio é muito importante, é cuidar da árvore que ele plantou enquanto estava conosco. É reacender a memória, é relembrar de momentos que tanto nos recordamos com saudade, e o mais importante, é mostrar para seus descendentes que eles fazem parte de uma família que tem como pilar de sustentação esse grande homem. Arnobio Pinheiro da Silva nasceu no dia 28 de julho de 1915, no sítio Jerusalém próximo à vila Itaú no município Norte-rio-grandense de Apodi, filho do agricultor Pedro Martins da Silva e da parteira Edwirges Pinheiro Martins, se vivo fosse, meu querido avô paterno estaria completando um centenário. Segundo filho do casal, cresceu ao lado dos seus irmãos, ajudando nos afazeres do dia a dia no sítio e estudando, embora tenha passado pouco tempo na escola, ele se destacava por ser um menino inteligente, embora não gostasse de frequentar as aulas, logo aprendeu a ler e a usar a matemática, matéria que, mais tarde seria base para seus negócios. Mesmo querendo fugir dos clichês, é inevitável dizer que ele foi um modelo de homem simples, trabalhador, extremamente honesto e correto em seus negócios. Quando comecei a entender a vida, ele vivia de emprestar dinheiro a juro para amigos e conhecidos da região, assim ele tocou a vida por muitos anos e foi assim que ele adquiriu terras e alguns outros bens. Trabalhador incansável desde a infância, um homem do campo, sempre acompanhou seu pai na luta diária com o gado e com um comboio de oito burros que o mesmo tinha para ajudar em casa, carregando encomendas para diversas cidades e municípios da região. Nunca foi de viver em sambas (Forró, cantorias, etc.), sua maior ocupação era trabalhar e mesmo quando saia para se divertir com os amigos, no final sempre terminava arrumando um trabalho. Nunca me esqueço de uma passagem da sua vida que ele me contava, que certa noite ele saiu para um festejo da igreja com os amigos, onde nesse festejo tinha um parque de diversão e enquanto seus amigos procuravam namoro, ele passava a noite empurrando o carrossel para ganhar algum dinheiro e assim voltar para casa com algum trocado no bolso. Terminava a história dizendo que no final da noite ficava mangando dos seus amigos que tinham gastado todo dinheiro que levaram, e ele ao invés de gastar, tinha ganhado mais. Ele com seus 28 anos sempre foi um homem de Deus, devoto de Nossa Senhora das Dores, sempre acompanhou seus pais nas missas, procissões e novenas no mês de maio. Foi na igreja que ele conheceu aquela que futuramente seria sua esposa, a mãe dos seus filhos, a filha caçula do senhor Fausto Pinheiro, a senhorita Estelita Maia Pinheiro, uma moça bonita, bem educada, prendada, uma moça de família, predicados que logo lhe chamou a atenção. Como seus pais já se conheciam e por ele ser um homem trabalhador, logo o senhor Fausto Pinheiro permitiu que ele lhe cortejasse, com apenas oito meses de cortejo, exatamente no dia 14 de setembro de 1944 na igreja de Nossa Senhora das Dores, eles se casaram na presença do reverendíssimo Padre Renato de Menesses e dos seus familiares. Daí então, eles foram morar no sitio Jerusalém e por lá tiveram boa parte dos seus filhos: Euclides Pinheiro Martins, Maria Clécida Pinheiro, Pedro Martins da Silva e Luís Martins da Silva logo morreram na infância, Maria Úrsula Pinheiro, Fausto Pinheiro da Silva Neto (Silva), José Iranildes Pinheiro (Zé de Coca), Maria das Graças Pinheiro, Antônio Pinheiro Martins (Toinho), e Maria Iara Pinheiro. Um fato curioso é que todos os filhos que nasceram no sítio Jerusalém foram trazidos ao mundo pelas mãos de sua querida mãe Edwiges Pinheiro que era uma das parteiras da época. Devido aos esforços de sua adolescência, e da ajuda dos seus pais ele já tinha conseguido algumas terras e vivia da agricultura e da criação de gado, embora fosse difícil estudo naquela época, sua querida esposa Estelita sempre lutou para que seus filhos estudassem. No ano de 1962 eles conseguiram comprar do senhor Júlio Marinho uma casa agora na não mais vila Itaú, e sim, na cidade de Itaú. Foi nessa casa em 1964 que nasceu o último filho do casal, Jorge Ivanilson da Silva, meu pai. Filho que, mais tarde lhe homenageou dando ao seu segundo filho o nome de Arnobio Neto.



 Sua querida esposa, Estelita Maia Pinheiro. Com o passar dos anos, já na cidade, sua esposa começou a trabalhar como funcionária dos correios e ele assumiu outro negócio, além de um grande fazendeiro produtor de feijão, milho, arroz e também agiota (Pessoa que empresta dinheiro sem nenhuma comprovação), ele se tornou um grande comprador de castanha, oiticica e algodão, não só em Itaú, e sim, em toda região, se tornando muito popular e querido por todos. Ao lado do seu filho mais novo Jorge, eles percorriam todas as cidades comprando algodão e depois vendendo na usina em Umarizal. Depois de anos com a desvalorização do produto, o mesmo deixou de comprar e passou a se empenhar somente da produção de castanha de caju e da agiotagem, função que exerceu até seus oitenta e sete anos. Um homem que admirava a política, nunca se desvinculou do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), embora gostasse nunca se candidatou e muito menos se beneficiou de algum órgão público. Sempre observou as campanhas por fora e suas maiores contribuições aos candidatos eram mais na parte financeira, onde era muito ouvido e respeitado por todos. Sr. Arnobio Pinheiro com seu neto Arnobio Neto.


  Jorge, Arnobio, um filho de João de Geremias, Raimundo Martins e Antônio de Anjo. Um homem de casa, trabalhador, acolhedor, sempre teve prazer em receber amigos e seus familiares na sua casa. Ao lado de sua esposa que era uma ótima anfitriã, sempre acolhiam todos, nunca negou comida a ninguém, quem entrava na sua casa tinha como obrigação sair de barriga cheia. Gostava de almoçar com todos na mesa, seus filhos se possível, netos e bisnetos. Homem de poucas palavras, semblante fechado, mas de um coração enorme, nunca gostou de brigas, intrigas, nada que atrapalhasse seu convívio com as pessoas, se fosse ofendido por alguém, procurava esquecer a ofensa e quem lhe ofendeu e tocava a vida pra frente sem nenhuma represália. Família e amigos reunidos na hora do jantar. O Sr. Arnobio sempre foi um ótimo anfitrião. Mas o tempo passou, e aquele homem forte e saudável já não era mais o mesmo. Aqueles dias de trabalho incessante além de lhe render ótimos frutos também lhe trouxe complicações, doenças, que durante boa parte de sua vida lhe incomodou. Dor nas articulações era o que ele mais reclamava e após muitos exames foi constatada uma Osteofitose, o popular Bico de Papagaio e com a velhice chegando a galope, às dores começavam a lhe incomodar mais ainda. Embora ele não mais pudesse andar como antes, nada o afastava de suas terras, e eu já um rapaz comecei a acompanhá-lo nas suas viagens ao sítio e a fazer outros afazeres aqui na cidade. Só uma atividade diária ele não deixou de fazer, o prazer de emprestar dinheiro ainda corria nas suas veias e isso gerou algumas discussões com sua querida esposa Estelita, chegando ela mesmo, a comentar nos momentos de discussões que: ”Só tenho pena Arnobio que mesmo que eu esteja melhor de saúde que você, estou convicta que partirei dessa terra primeiro que você”. Mas logo o tempo tratou de lhe dar um golpe, no ano de 2003 ele sofreu um infarto que quase lhe tirou a vida, mas dessa vez a doença lhe deixou sequelas que lhe impediam de fazer o que mais gostava que era mexer com seus papéis e lhe dar com o dinheiro, e daí então começava o seu sofrimento. Não poder mais andar com suas próprias pernas, não poder mais trabalhar e ter que depender dos outros lhe deixou muito abatido, triste e a decadência foi inevitável, daí então saí da casa dos meus pais e passei a morar com ele para lhe ajudar a se locomover e a tomar banho durante a madrugada. Embora tivesse todo acompanhamento de sua esposa, seus filhos, Jorge, Iara, Silva e Netinha e de alguns dos seus netos, isso não era o suficiente e as lágrimas começaram a ser rotina em seu rosto. 

                                                                 Estelita e Arnobio
 No ano de 2006, a sua saúde já estava muito debilitada e dependendo de nós para fazer tudo, à vida resolveu golpeá-lo com a perda daquela que foi sua companheira por 62 anos, aquela que compartilhou momentos felizes durante toda uma vida, sua querida esposa Estelita partiu para a morada celestial lhe deixando aqui, não só, pois ele nos tinha ao seu lado, mas partiu lhe deixando muita saudade e tristeza. Depois do acontecido só nos restou cuidá-lo com o mesmo amor, pois aquela que lhe fazia companhia nas noites não estava mais presente. Ele já não entendia mais nada do que se passava nessa vida, já estava como uma criança aos nossos cuidados, levando ao ponto de por várias vezes pedir em poucas palavras a morte. E no ano seguinte em 2007, mais precisamente no dia 07 de dezembro ele nos deixou e foi morar na casa do senhor deixando órfãos de sua presença seus 6 filhos, 15 netos e 6 bisnetos. Dos 21 anos que convivi com meu avô, lembro com alegria de cada história que ele me contava. Lembranças que tento repassar para meu filho e sobrinho e que levarei para a eternidade. Hoje lembro, mas não com dor no peito, e sim, com orgulho por ter tido a oportunidade de participar do projeto de vida desse grande homem que foi o meu querido avô Arnobio. Termino minhas palavras como comecei, não lamentando a sua morte, mas sim, mostrando o seu legado e deixando bem claro que “Um homem nunca morre enquanto for lembrado”. Jadson Fernandes da Silva
 
Jadson Fernandes da Silva, 29 anos, natural de Itáu-Rn, filho de Jorge Ivanilson da silva e Ana Lucia Bessa Fernandes. Estudante de Licenciatura em Química no Instituto Federal do Rio Grande do Norte, IFRN, Campus Apodi. Um filho abençoado com uma maravilhosa família, pai do Pedro Jorge e um neto que se lembra do seu querido avô a todo o momento.

                   Senhor JESUS CRISTO o nosso único Salvador
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Um comentário:

  1. Gostei muito de ter conhecido esse tio através deste relato tão preciso. .Gratidão

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